Rádio Nação Ruralista

domingo, 18 de março de 2012

O CARREIRO



João Henriques da silva*
(In Memoriam 20/09/1901 – 16/04/2003)

Tão logo Biri passou a se entender de gente, não largava o pai no seu oficio de carreiro. Era sua paixão, sentar-se na mesa do carro e ganhar as caatingas, no transporte de lenha para o forno de cal.
            Antes do amanhecer já estava de ouvido a escutar, sonhando os movimentos do pai nos preparativos para juntar a boiada. E no primeiro sinal, saltava da rede, calçava as apragatas de correia, lavava o rosto na bacia de flandre, apanhava o chapeuzinho de couro e ficava rondando.
            Quando os bois chegavam do pasto, já estava no terreiro. Pedia a benção ao pai, avisava que o café já havia fervido e a comida estava na mesa para quebrar o jejum.
            Seu Antonio Tetéu atrelava a boiada e entrava pensando no que ia fazer. Colocava, calmamente, o cuscuz fumegante no prato fundo com leite fumaçando e ficava como se estivesse esperando alguma coisa.
            - Come pai, senão esfria.
            Biri não começava antes do pai e ficava, às vezes, impaciente, sobretudo quando havia um assado de carne de bode ou um pedaço de jabá para forrar bem o estômago.
            - Olha, Biri, quem carreia não deve ter pressa. Tem que andar no passo dos bois.
Afinal, comiam. Tetéu acendia o cigarro de fumo de rolo, tomava as primeiras tragadas, pegava o facão, pendurava na cintura e gritava a boiada.
Dona Conceição ficava escutando o carro cantar até sumir na caatinga. Pela cantoria do carro sabia quando iam e quando voltavam. Botava o feijão macáçar no fogo e cuidava do arranjo da casa.
Depois disso, ia fazer renda na almofada de bilros. Sempre recebia encomendas que lhe davam algum dinheiro. Pouco, mas bem que servia.
As rodas de madeira, com os aros de ferro, chiavam no chão duro no pedregulho das trilhas. Enquanto enchia o carro, soltava as duas juntas de boi para irem pastando ali por perto. Biri se encarregava de vigiá-los.
- Trás as juntas Biri.
 Os bois já sabiam onde iam ficar. Canário e Azulão, os bois de coice, entravam primeiro. Eram mais treinados e possantes. Pintado e Careta, no cambão.
Os bois davam o primeiro impulso, erguendo o lombo e o carro, pesado, começava a rodar e a cantar pela caatinga afora.
Boi de carro de Tetéu nem apanhava, nem levava ferrão. Não havia tanta pressa assim.
A vara de ferrão não tinha agulhão. Bastava uma cutucada para alertar a boiada nos lugares mais difíceis. Todos os dias era aquele mesmo rojão, não faltava lenha para o cozimento das pedras de cal.
 A caatinga é que ia se esvaziando. Os machadeiros iam derrubando tudo. Exceto as Baraúnas, Paus-D’arco e Aroeiras que pudessem dar obra.
Mas era necessário fabricar cal para sobreviver naquele sertãozão de pouca chuva. Os campos iam ficando pelados, uma árvore aqui outra além. Mas não havia outro jeito. Seu José Deodato tinha pena daquilo, mas não tinha outra saída.
Como poderia viver toda aquela gente sem a quebra de pedras, do corte da lenha, dos transportes, os forneiros e os demais.
Quando olhava para os seus campos devastados, entristecia, mas desgraçadamente tinham que viver todos daquela consumição. E pensava como iria ser quando não houvesse mais paus para derrubar e lenha para queimar pedra. Eram feios demais aqueles campos vazios, o chão descoberto, com o lombo queimado.
E os vizinhos sempre aconselhando:
- Deixa José Deodato, essa derrubada. Para de fazer cal. Estais acabando com a propriedade. Já não tem nem folha para bode comer.
- Como posso minha gente. E as famílias que vivem disso. Quem vai lhe dar o que comer se não chove para criar lavouras. Eu sei, eu sei, mas o pior é parar.
A boiada do transporte de pedras terminava o dia toda manchada de sangue da ponta do ferrão. Descarnada, judiada, estropiada.
Seu José Deodato chamou o carreiro Damião:
- Por que esses bois estão assim?
- O senhor não quer pedra para queimar? Tenho que correr e o jeito é a ponta do ferrão! Não se pode alisar couro de boi. Nem fui eu quem inventou ferrão. Quem inventou é porque sabia o que fazia.
- Pois é. Entrega o carro a Tetéu. Ele é que vai manobrar com os dois. Ele bote quem achar melhor. Não admito uma barbaridade dessas. Pensas, cabra bruto, que os animais não sentem dor como a gente? Isto é desumano. Se quiseres continuar trabalhando vai para a boca da fornalha, Lá verás o que é bom.
Tetéu tomou conta do carro. Mandou dar um banho nos bois e tirar as pintas de sangue. Tomou a vara de ferrão e arrancou-lhe o agulhão.
Chamou o Capoeira e entregou o carro:
- Olha, em boi nem se bate, nem se fura. E quero vê-los iguais aos meus.
O cabra Damião ficou despeitado. O calor da fornalha queimava-lhe as pestanas. Tinha certeza que aquilo havia sido fuxicada do Tetéu. Jurava vingar-se. Preparou-se para isso.
Biri já era um rapazote fornido e ligeiro como um gato.
Damião estava espoletado. Dia a dia aumentava-lhe a sede de vingança. Certa feita, na hora da folga seguiu Tetéu. Queria pegar o bicho onde não houvesse alguém para acudi-lo. Apressou os passos e, no meio da caatinga alcançou Tetéu:
- Quero falar com você.
- Então vamos andando.
- Andando não, seu safado. Foi você que fez a fuxicada para o homem me tomar o carro. Sei que foi e não adianta negar.
E virou o cacete em Tetéu.
Tetéu não queria fazer uso do facão. Procurava se safar e encontrar um meio de defesa.
Biri viu aquilo espantado.
Tetéu poderia cortá-lo a facão e já estava destinado a isso, quando de repente viu o danado cair e Biri enfiar-lhe novamente a faca. Ia dar-lhe outra quando Tetéu gritou:
- Basta Biri.
- Pai, vamos acabar com esse peste.
 O cabra gemia e chorava. Pelo amor de Deus não me matem
Biri mostrou-lhe a ponta da faca e riscou-lhe a barriga.
- Vamos levar para a fazenda, Biri.
- Não pai, deixa esta desgraça apodrecer aí. Ninguém vem procurá-lo e os urubus vão fazer uma festa com ele... Nunca mais vai bater em pai de ninguém.
- Não façam isso. Levem-me. Juro como estou arrependido. E não falou mais nada. O diabo já o havia levado.
No dia seguinte os urubus começaram a baixar.
- Morreu bicho. Vão ver o que é.
- Patrão, é o safado do Damião, sem a cara. Deve ter estuporado.

·         O autor é pai de Grijalva Maracajá Henriques






sexta-feira, 16 de março de 2012

O MEU PAÍS




Orlando Tejo*



Um país que criança elimina,
Que não ouve o clamor dos esquecidos,
Onde nunca os humildes são ouvidos
E uma elite sem Deus é quem domina;
Que permite um estrupo em cada esquina
E a certeza da dúvida infeliz;
Onde quem tem razão baixa a cerviz
E massacram-se o nego e a mulher,
Pode ser o país de quem quiser,
Mas não é, com certeza, o meu País!

Um país onde as leis são descartáveis
Por ausência de códigos corretos,
Com quarenta milhões de analfabetos
E maior multidão de miseráveis;
Um país onde os homens confiáveis
Não têm vez, não têm voz nem diretriz,
Mas corruptos têm vez e voz e bis
E o respaldo de estímulo incomum,
Pode ser o país de qualquer um,
Mas não é, com certeza, o meu País!

Um país que perdeu a identidade,
Sepultou o idioma português
E aprendeu a falar pornofonês
Aderindo à global vulgaridade;
Um país que não tem capacidade
De saber o que pensa e o que diz,
Que não pode esconder a cicatriz
De seu Povo de bem que vive mal,
Pode ser o país do carnaval,
Mas não é, com certeza, o meu País!

Um país que seus índios discrimina
E a Ciência e as Artes não respeita,
Um país que inda morre de maleita
Por atraso geral da medicina;
Um país onde escola não ensina
E hospital não dispõe de Raio-X,
Onde a gente dos morros é feliz
Se tem água de chuva e luz do sol,
Pode ser o país do futebol,
Mas não é, com certeza, o meu País!

 Um país que é doente e não se cura,
Triunfal candidato ao quinto mundo,
Que do poço fatal chegou ao fundo
Sem saber emergir na noite escura;
Um país que engoliu a compostura
Atendendo a políticos sutis
Que dividem o Brasil e mil brasis
Pra melhor assaltar de ponta a ponta,
Pode ser o país do faz-de-conta,
Mas não é, com certeza, o meu país!

Um país que dizima sua flora
Ensejando o avanço do deserto,
Pois não salva o riacho descoberto
Que no leito precário se estertorar;
Um país que cantou e hoje chora
Pelo bico do último concriz,
Que florestas destrói pela raiz
E a grileiros de fora entrega o chão,
Pode ser que ainda seja uma nação,
Mas não é, com certeza, o meu país!

*Tejo, Orlando.
As noites do Alvorada: Via Crucis do Caboclo Misterioso/Orlando Tejo.
Recife: Cia Pacifica, 1997.







domingo, 11 de março de 2012

O homem que tapeou Antônio Silvino





Era uma vez... Dois primos, Inácio e Severino, brejeiros dos bons, que viajavam semanas a fio, de vinte a trinta quilômetros por dias com os burros carregados, só parando para alimentação frugal e à noite para o cochilo mal acomodado, sempre debaixo de árvores que dessem uma boa sombra, e os protegessem do sereno da noite, como os Juazeiros, Mulungus, Trapiazeiros, Umbuzeiros e Craibeiras pelo Agreste Nordestino: Brejo, Curimataú, Seridó, Cariri e Sertão com uma tropa de burros: dois de sela e doze animais de carga, com seus arreios aonde dependurados iam à malotagem, bruacas ou os sacos com as mercadorias, sempre cobertas com lonas, fora a burra madrinha, velha e sabida que encabeçava e escolhia os caminhos melhores, sempre enfeitada com fitas e um sininho característico ou mesmo um chocalho com um som bem peculiar, onde os outros animais a seguiam quer de dia ou à noite; desses burros, dois eram animais com a troçada do dia a dia: comida, redes, água, capote feito de algodão grosso, onde matava o frio e os protegias da chuvas (poncho),  panelas, fumo de corda, cachaça, trempe de ferro para cozinhar, lona, sabão e o diabo a sete. A comida se resumia, quase que carne de charque, ou carne seca (chamada de sol) farinha de mandioca, queijo de coalho, toucinho, sal, café, açúcar, arroz, temperos, feijão dos dois tipos: o mulatinho e o de corda, xerém de milho e um tipo mais fino para fazer cuscuz.
Saiam sempre de Riacho Fundo, fazenda localizada entre Esperança e Areial na Paraíba, Próxima da fazenda Arara do meu avô Manoel Henriques (Virgolino) da silva.
Viviam nas propriedades de seus familiares, onde há muito se produzia feijão de arranca (mulatinho), fumo, que era transformado em “fumo de rolo”, pronto para ser usado, erva doce, batatinha inglesa, agave, café e mais uma finidade de alimentos para sua sobrevivência e para a comercialização.
Muitos tropeiros também partiam do Brejo Paraibano, levando estas mercadorias como também o açúcar mascavo, a cachaça e a rapadura, produzida nos engenhos do Brejo.
 No entanto, esses dois meus parentes, há muito tempo só negociavam com feijão, café e fumo, lá pras bandas de Parelhas, Ouro Branco, Macaíba e adjacências no Rio Grande do Norte. Numa dessas viagens, levaram apenas feijão e fumo de corda, não conseguiram vender o feijão, pois naquele ano o inverno fora bom e quase todo mundo tinha de sobra para comer e vender. Venderam o fumo ligeiro e Severino se decidiu tentar vender os sacos de feijão mulatinho na cidade de Natal-RN.
Disse para o Inácio – Vá levar os burros descarregados pra casa, avise a família meu destino e venha se encontrar comigo por lá.
Assim o fez. Um seguiu com seis burros carregados e o outro desceu em direção a Esperança para fazer o que haviam combinado.
Inácio logo que pode, empreendeu viagem, num burro bom, meeiro que o cabra chegava a cochilar em cima da sela. Num dia e meio espirrou na capital Rio-grandense, foi direto para o local marcado. Ficou meio contrariado por não encontrá-lo, danou-se a procurar pelos arrabaldes: locais onde sempre se reuniam os tropeiros, depois de desocupados, como ainda se ver hoje nos dias de feiras nas cidades do interior, (sempre um campo de futebol, em terreno abandonado). Bares, bodegas, lupanares, casas de jogos, pensões baratas, currais onde sempre os animais esperavam, pacientemente, pelos donos, a um preço módico, com direito apenas a água e a garantia de que de lá ninguém os roubariam.
Passou-se um dia e nada do primo. Tirou onda de detetive. Começou a fazer perguntas e nada de notícias, já aperreado, passado quase uma semana, mandou avisar pra família do acontecido e que iria continuar nas buscas. Era um mistério medonho. O homem desaparecera sem deixar rastros. Como o primo tinha vontade de conhecer o norte, ele logo pensou que esse seria o rumo que tomara, para vender o danado do feijão, achando que por ali não havia encontrado negócio, seguiu viagem, e na primeira cidade, teve finalmente notícias de um tropeiro com seus burros. Era só esta notícia que tivera, podia ser mentira mais também verdade, resolveu tirar suas dúvidas, pois já faziam mais de duas semanas da separação dos dois. Seguiu em frente e nada de alcançá-lo.
Notícia aqui e notícia acolá, depois de três meses chegou à cidade de Sena Madureira no Acre, local onde estava havendo migração de nordestinos para trabalhar com a extração da borracha, ficou por lá, sempre procurando o primo e trabalhando juntamente com aquela multidão de desgarrados da sorte. Lutou durante uns três a quatro anos até que resolveu voltar sem o parente, - o mato havia aberto e fechado e engolido o homem – e, como já havia amealhado um bom dinheiro. Fez finca pé de lá e em pouco tempo chegava ao seu velho Brejo, com o coração partido com o sumiço do amigo. Não sabia como se apresentar e narrar aos familiares do desaparecido. Havia de fato enviado cartas, mas falar de cara a cara era outra coisa, olhar nos olhos dos pais matutos e dizer que seu filho não existia era outra coisa mais dura de enfrentar.
Trazia consigo bastante dinheiro e muitas armas, frutos do seu trabalho como seringueiro.
A fama de “rico” logo chegou aos ouvidos de muita gente, inclusive de grupos de cangaceiros, que naquela época perambulavam entre o Brejo e o Cariri Paraibano como: Antonio Silvino, João de Banda, Nêgo Zé Luiz de Queimadas, João Pichaco e tantos outros desocupados.
Um dia lhe contaram que Antônio Silvino e João de Banda vinham tomar o dinheiro e as armas que possuía. Mudou-se da propriedade onde vivia e foi pra bandas de Pocinhos numa fazenda chamada Amaro. Enterrou as referidas armas e escondeu o dinheiro suado que havia conseguindo na luta do ouro branco e contra a malária (impaludismo), no Norte do País, na cidade de Sena Madureira no Acre. Dormia de dia e vigiava de noite, uma bela noite chegou Silvino com sua tropa, cutucaram tudo, reviraram todos os caixotes da casa fizeram ameaças a uns moradores velhos, mataram de tiros várias galinhas e nada de dinheiro e armas.
O danado do bicho também era sabido e jurou que Antônio Silvino não tomaria seus anos de trabalho.
Mudou-se para outra propriedade de nome Algodão perto de Soledade PB; a velha raposa logo descobriu o seu paradeiro e foi bater lá, mas o cabra dizia que “seguro morreu de velho e prevenido ainda estava vivo”, procurou ainda mais se esconder e despistar os cabras que viviam envenenados por dinheiro e armas.
Cada vez mais os cangaceiros ficavam com raiva, por não achar o que não era dele e desta vez, Antonio Silvino, fez o que não era seu costume. Inácio havia ido a fazenda Arara providenciar um enxoval de um sobrinho que havia nascido deixando um menino tomando conta da casa.        
Antonio Silvino emboscou-se com sua tropa atrás de umas pedras, esperando uma oportunidade; nisso viu o menino botar a cabeça fora de casa e aí pegou o molecote, vendo mais uma vez que havia dado o bote perdido, com raiva, deu uns riscos de punhal nos couros do pequeno vigia para que servissem de recado, matando dessa vez umas vacas que estavam no curral atrás da casa.
Inácio fugiu novamente, desta vez foi se embrenhar no lugar chamado Lajedo Vermelho, onde moravam outros parentes, perto da cidade de Soledade. Dizendo sempre que o que era dele ninguém botava a mão. Dessa vez quase que os cabras o pegavam, escapou por um triz. Aprendeu a lição e parou de se gabar e contar lorotas sobre quem era e o que tinha.
Nesse ínterim havia conhecido uma moça de nome Mônica do Município de Santa Luzia, formosa e rica, namorou, noivaram e casaram. Nunca mais Antônio Silvino teve notícias dele. Comprou duas fazendas: Canoa e Poço Salgado, juntamente com seu cunhado (Anísio) e com o dinheiro que tinha guardado montaram uma desencaroçadeira (bolandeira) e prensa de algodão, comprava e vendia gado, negociava com peles de animais num pequeno curtume que tinha na fazenda, possuía caminhões e um automóvel tornando-se um dos mais importantes chefes político e poderoso do lugar. (Ribinha). Antônio Silvino levou a breca, mas não pegou o seu dinheiro nem suas armas.
Muito tempo depois, voltava da feira, montado numa burra branca e pequena, mas que voavam pelas estradas pedregosas da região, enquanto seus filhos e meu tio vinham no caminhão com as mercadorias negociadas na feira, quando - já velho – subiu os degraus da casa e sua esposa abriu a porta contente e satisfeita, se surpreendeu com um cabra, que já o vinha seguindo, o atacando pelas costas, dando-lhe uma gravata com um punhal na mão, era um monstro de forte, dominando-o totalmente, a esposa tentou socorrê-lo, mas o satanás plantou-lhe um pontapé que a deixou desmaiada, nisso entra meu tio com seus dois primos e vendo aquela cena horrível, pegou uma trave de miolo de Aroeira que estava atrás da porta, danou na nuca do assaltante derrubando-o, o bicho ainda ficou ciscando no chão e imediatamente os outros tiraram suas facas e fizeram o resto do serviço. Mas, como era dia claro, engancharam o negrão pela gola da camisa no armador e esperaram que anoitecesse, para no silêncio e no escuro da madrugada, sem que ninguém visse, pudessem carregá-lo numa rede e jogá-lo num serrote que havia distante dali uma meia légua, num lugar quase inacessível.
Conto essa história dos meus parentes, hoje, porque já se passaram mais de cem anos e os personagens já não existem mais e nunca souberam quem era o bandido que tentou roubar o velho e cansado Brejeiro Inácio.







             Túmulo de Antonio Silvino no Cemitério Monte Santo em Campina Grande PB



GALDLINO CASCAVEL

            Bem ao centro da Chapada da Borborema, região dos Cariris Velhos, no meio da Caatinga, uma casinha de taipa que parecia mais uma tapera. Para chegar até lá só existiam veredas pouco trilhadas. Ninguém gostava de pessoas por ali. Era, segundo se dizia, um ninho de cobras venenosas. Era lá que morava sozinho, o velho Galdino, comedor afamado de cascavel, a cobra mais venenosa do Sertão. Não fazia roça. Nada plantava. Sua profissão era o fabrico manual de cordas de Caroá, que ia vender em várias cidades, nos dias de feira, sentado no chão, com uma dúzia ou mais de peças de corda. À tiracolo num bisaco encardido, onde trazia farinha e pequenos rolos de cascavel assada ou torrada. A meninada passava por longe, olhando-o com a curiosidade de vê-lo comer sua especialidade.
            Quando vendia o produto de seu artesanato rústico, botava o pé no caminho, já de volta, montado num jerico, o seu único possuído. Sozinho, como vivia, metido no meio da caatinga silenciosa e agreste, não lhe preocupava o resto do mundo. Nunca se chegou a saber de sua vida anterior.
            Alguns pensavam em um retiro espontâneo, outros lhe atribuíram doidice e outros ainda achavam que era algum criminoso refugiado naquelas brenhas. – Certamente matou muita gente ou pertenceu a algum bando de cangaceiros.- Água para beber, trazia de longe, quando não chovia. A verdade é que levava uma vida tranqüila, socado naquelas lonjuras, onde nem se ouviam os galos do vizinho cantar. Sim, além do jumento de sua montaria, possuía uma cachorrinha rajada chamada Jararaca, sua companheira nas caçadas de tatu e cascavel. No faro de Jararaca, não escapava bicho.
            E o velho Galdino já sabia de longe o bicho que ela acuava, pelo ganido. Pelo dia, ainda cedo, colhia folhas de caroá na caatinga. À tarde e à noite, desfibrava (descortiçava) e fabricava cordas. Para isso possuía o seu “engenho”. Entretanto à tardinha, ao anoitecer e pela madrugada fazia a caçada de suas cobras prediletas.             Contavam que só as matava no dia de prepará-las. Trazia-as para casa, amarrava-as com um laço frouxo e poder de reza. Dali não saia. Sabia mundrungas, o que o fazia ainda mais respeitado e temido.
            A casca do caroá era colocada por cima do telhado e em locais adequados para viveiro das “bichinhas”.
            Galdino Cascavel estava totalmente identificado com aquele sistema de vida. Era um favor que lhe faziam não pondo os pés em sua casa. Ninguém iria modificar os seus hábitos. Que o deixassem com sua especialidade. Fazia suas caçadas a qualquer hora. Dependia de dispor de tempo. Era sua melhor distração. Galdino gosta de andar pelas caatingas com a cachorrinha Jararaca farejando cobras, tatu ou qualquer outro bicho. Certamente não era fácil descobri uma cascavel enrodilhada. Tornava-se relativamente fácil quando descobria o rastro das bichinhas. Conhecia perfeitamente, a direção. A posição dos fragmentos vegetais sobre o solo lhe indicava o rumo certo. O resto era com o faro de sua cachorrinha Jararaca.
            Jararaca não se aproximava. Sabia o perigo que corria. Quando a localização tornava-se difícil, usava um espelho que logo refletia a “caça”.
            Seguindo o rastro da cobra cautelosamente, tinha quase certeza de encontrá-la. E costumava dizer – “Está no papo”. Muitas vezes o esconderijo era um velho buraco de tatu ou de formigueiro. Cavava-o ou então ficava vigilante nos dias seguintes, quando a bicha deveria sair à tardinha. Quando a cascavel não havia feito uma boa presa, sairia logo, mas se o havia feito, somente algum tempo depois da digestão. Mas não havia problema. Estava engordando. Conhecia a idade das cascavéis pelo número de enrugas ou guizos do maracá. Na época da parição, respeitava as fêmeas. Eram geralmente de doze a mais cascavelzinhas que iriam aumentar o rebanho, por cada parição. Além disso tinha certo nojo de cobra choca.
            Um dos locais de caça de maior rendimento era o morro do urubu. Coberto de macambira e xiquexique, cheio de locas de pedras, oferecia condições especiais para moradia.
            Diziam que no morro moravam também grandes cobras de veado que pegava cabritos e até gente se facilitasse. Galdino Cascavel ansioso para pegar a menos uma. Teria carne seca para muito tempo. Mas sempre lhe faltou sorte. Contudo não abandonou a idéia de sempre esperar. Algumas pessoas afirmavam já ter visto.
            Um dia chegaria a sua vez. E como quem espera sempre alcança, o velho Galdino teve um dia satisfeito o seu desejo. Já voltava da caçada, quando deu com o rastro de uma saindo do morro. Rastro recente. E foi seguindo cuidadosamente. Poderia ser laçado e estaria perdido. Confiava na cachorrinha Jararaca que andava sempre na frente. Ouviu-a acuar. Foi-se chegando e encontrou o cobrão com um bodinho seguro. O bichinho tremia apavorado. Ainda não o havia laçado. Malhou-lhe o cacete, até que a bicha o soltou. Fazia pena ver o coitado com os olhos assustados, sabendo que iria morrer. Somente depois de algum tempo começou a andar, berrando a procura do rebanho.
             Cobrão. Dezoito palmos e meio. Arrastou-a para o rancho. Tirou-lhe o couro, rolou a bichona, mas, o sal era pouco para salgar tanta carne. Não havia outro jeito. Assaria sem salgar. Gostou da carne, embora um pouco mais dura do que a de cascavel. Também quantos anos deveriam ter aquele mostro. Secou o couro e levou à feira para vender. Apurou um bom dinheiro. Lamentava-se ser tão difícil de encontrá-las.
            Muitos anos depois de ter se metido no meio daquela caatinga desadorada, Galdino Cascavel, arranjou uma companheira. E correu a notícia:
            – Galdino Cascavel amancebou-se. Botou uma mulher dentro de casa. Foi medo de morrer sozinho. A velhota é igual a ele. Viver no meio das cobras e ter que come-las. Não pode deixar de ser doida.
             Mas não demorou muito. Deu no pé. E o velho Galdino ficou novamente só. Já havia passado dos cem anos e continuava no mesmo regime de vida. Não adoecia nem tinha dores reumáticas. A carne de cobra curava tudo dizia, com quase cento e quinze anos, ainda lá estava sentado no meio da feira de Esperança, vendendo suas peças de corda de caroá e comendo cascavel assada.
            - Olha, fulano, aquele ali é o Galdino Cascavel. Cento e quinze anos nos costados.  Naquele bisaco, tem cobra assada e farinha. É o que come.
            Hoje muita gente come cobra, mas, naqueles tempos era uma novidade, principalmente a cobra mais venenosa do sertão. Era uma especialidade rara.
            Muita coisa contava-se daquele homem excepcional, que se tornou conhecido somente depois de espalhada à notícia de que comia cascavel. E como teria começado essas especialidade. Foi o velho Damião quem contou. Galdino era uma criatura como outra qualquer. Certo dia, durante uma bebedeira entre companheiros, mataram uma cascavel que teve a má sorte de aparecer. A pinga já andava alta. Quiseram apostar com quem comesse a cobra assada. Galdino topou a aposta. O apostador daria o salário da semana de trabalho. E a cobrar foi ao fogo com couro e tudo, menos a cabeça. E Galdino comeu-a tomando mais pinga. Gostou da carne e comeu mais do que esperavam. Cumprida a aposta o sujeito não quis pagar. Era brincadeira. E no paga, não paga, a faca de Galdino saiu da banhinha e antes que houvesse tempo para a defesa já o cabra estava no chão.
            Galdino fugiu. Caiu na caatinga. O patrão do defunto deu ordem para pegá-lo de qualquer forma, o que nunca aconteceu. Acuado no meio da caatinga distante, Galdino não iria morrer de fome e comia o que lhe aparecesse. Com exceção de urubu. Assim também já era demais. E como havia gostado da carne maciça de cascavel, não lhe escapava uma. Também nunca mais bebera. O tempero era sal e um bom molho de pimenta malagueta.
            Morreu de velho. Não de doença. O coração cansou e foi só. Sua longevidade devia-se à tranqüilidade em que vivia e ao clima saudável das caatingas da Serra da Borborema.

30 de janeiro de 1986
João Henriques da Silva (In Memoriam) 20 de setembro de 1901 – 16 de abril de 2003 (o autor é meu pai)





Nota: O personagem Galdino cascavel, aparece também em narrativas de José Américo de Almeida e de José Lins do Rêgo.


sábado, 10 de março de 2012

                                                NOTAS BIBLIOGRÁFICAS
                                               RAULINO DE MEDEIROS MARACAJÁ
  (Major Raulino)

Grijalva Maracajá Henriques*

Nasceu na Fazenda Arara, Município de São João do Cariri, no dia 15 de setembro de 1879, numa segunda-feira, às seis horas da tarde e desencarnou no dia 21 de novembro de 1961 na Fazenda são Domingos, de sua propriedade, no Município de Timbaúba do Gurjão (hoje Gurjão) e enterrado na mesma cidade.
Começou seus estudos com a idade de nove anos, lá pela meada do mês de janeiro de 1887, “em casa do professor Demétrio da Costa Ramos, num lugar chamado Figueiras, abaixo de São João do Cariri uns seis quilômetros”, como ele mesmo descreveu.
No ano de 1889, foi estudar na Escola do professor Francisco Tejo na cidade de Batalhão (hoje Taperoá), com seis outros colegas de nomes: Luis Queiroz, José Genuíno (Dr. Zuzú, depois Juiz de Direito de São João do Cariri), Francisco Tejo, Silvino Tejo, e João Carneiro Vieira de Melo, até o ano de 1891.
Em principio de 1892, toda a turma foi transferida para a cidade de Taquaritinga do Norte-PE, acompanhando o “carrasco” professor Tejo, que fora ajudar seu tio o padre Tejo, que adoentado e quase cego, não podia desenvolver os trabalhos na sua paróquia.
Mas uma vez, a turma dos sete colegas se transferiu para João Pessoa, acompanhando o referido professor, até o ano de 1894. Outra vez o seu educador fora convocado pelo tio, mas, desta vez para se candidatar a deputado, por Pernambuco, onde fora eleito.
Mudou-se novamente com seu irmão Luis, de endereço; para a pensão do senhor Leôncio, estudando desta vez com Dr. Antonio Hortêncio, filho do proprietário da casa que os preparou para os exames, onde foram aprovados em Francês e Português. Liceu Paraibano?
Nova mudança se deu no ano de 1895. Desta feita fora morar na cidade do Recife, onde já estudavam seu tio Lucas Maracajá e dois irmãos: Inácio e Abdias, no colégio de Dr. Olinto Victor na Rua da Gloria nº. 33; No final do ano de 1896, após prestar exames em várias matérias: Inglês, Geografia, História do Brasil e História Universal sendo aprovado em todas, com exceção de Matemática.
Nas férias viajou para sua “inesquecida” Paraíba e seu amado Cariri. Não mais voltou, preferiu a dura vida do campo na sua velha Arara dos Maracajás.
No período de 1897, viveu lutando na fazenda com seu pai, Major Patrício de Medeiros Freire Maracajá, até o seu casamento com sua prima Virgínia de Queiroz (Vinú) - filha de José Genuíno Correia de Queiroz (capitão Cazuza).
Com mais esse compromisso, daí em diante teve que tomar outro rumo, pois agora era um homem casado; Casamento este que fora realizado no dia 26 de dezembro de 1901 na cidade de Taperoá. O Civil oficializado pelo Juiz Dr. Elias da Costa Ramos e o religioso pelo padre Paulino Vilar.
 Deste casamento tiveram os seguintes filhos: Luiz Maracajá, Severina Maracajá, Alice Maracajá, Nícia Maracajá, Analice Maracajá e Nélia Maracajá; na época do casamento ela tinha a idade de treze anos, nascida em 18 de janeiro de 1888 e tendo falecida em 5 de junho de 1950 por uma mordida de uma pequena cobra jararaca, num canteiro de verduras ao lado da casa na fazenda São Domingos.
Morou uma temporada com o sogro, na fazenda Pau Leite Município de Taperoá, mas no dia 6 de fevereiro de 1902, seguiu viagem para a Fazenda Nova Vista, município de Timbauba do Gurjão, que pertencia ao seu sogro e que com a morte do mesmo ficou proprietário, por herança. Lá desenvolveu várias atividades agropecuárias, comerciais e industriais.
Criava bois para engorda, vacas leiteiras, cabras e ovelhas, comprando e vendendo na região. Instalou uma beneficiadora de algodão, talvez a primeira movida à “locomóvel”, comprava algodão bruto, descaroçava, prensava e vendia em Campina Grande, ao industrial Demóstenes Barbosa. Montou também um pequeno engenho de açúcar onde também fabricava rapadura e derivados. Mantinha um pequeno comércio na própria fazenda; vendia tecidos e toda sorte de miudezas para o povo da redondeza, onde de mês em mês ia fazer compras em Recife ou em Campina Grande. Tempo depois, comprou a fazenda São domingos que passou os restos de seus dias.
Participava ativamente da vida da sua paróquia. Deixou relatos sobre todos os párocos que haviam passado por ali.
Foi sempre um corajoso, como todos que viveram naqueles tempos, sempre abandonados pelos poderes públicos, tendo que enfrentar as grandes secas, olhando para os céus, atrás de indícios de nuvens que anunciassem chuvas salvadoras para seu querido Cariri. Só fugiu uma vez da danada da seca, descendo para o brejo de Alagoa Nova para escapar da terrível seca, num engenho de um seu primo. Voltado logo que os céus anunciaram as primeiras trovoadas e os relâmpagos como servindo de mensageiros, insistentemente, chamando todos os bravos caririzeiros para recomeçar a luta desigual entre o homem e a natureza.
Participou como Juiz da Paz, na região, resolvendo casos de herança, medições de terras e uma infinidade de problemas sociais; levando os problemas não resolvidos para a Comarca de São João do Cariri, para as autoridades de lá darem uma solução. Às vezes viajavam em caravana mais de cinquenta cavaleiros, junto com o Major Raulino, até aquela cidade, voltando todos satisfeitos com os acordos feitos.
Deixou centenas de trabalhos literários, escritos à mão, “com caneta tinteiro e mata borrão”, em cadernos grossos (tipo Livro Razão), que geralmente dedicava às pessoas de quem gostava e admirava.
Escrevia sobre tudo: pessoas, o tempo, os animais, sua vida, os vícios, os políticos, a politicagem, os padres, biografia dos santos e de brasileiros ilustres, falava das festas, traduzia contos do Francês, criava também frases em latim, produzia pequenas histórias, e mais uma infinidade de assuntos corriqueiros da vida Nordestina.
   Locovóvel (modelo parecido, usado pelo Major Raulino na fazenda Nova Vista)

“Em 1.777, o inventor inglês Matthew Boulton comunicou ao rei George III a construção de um aparelho que revolucionaria o mundo: a máquina de vapor d’água para a geração de energia, que viria substituir totalmente a força muscular humana e de animais a partir do século XVIII. O locomóvel foi usado no início do século, principalmente nas grandes indústrias. Foi também utilizado na produção de energia elétrica primária em muitas cidades”.


Cópia da Carta Patente de Major Cirurgião Raulino de Medeiros Maracajá

PATENTE – (ipsis litteris)

O PRESIDENTE DA REPUBLICA DOS ESTADOS UNIDOS DO BRASIL

Faço saber, aos que esta Carta Patente virem, que por decreto de 9 de Maio de 1912, foi nomeado Raulino de Medeiros Maracajá para o posto de Major Cirurgião da 11ª- Brigada da Infantaria da Guarda Nacional da Comarca de São João do Cariri do estado da Paraíba do Norte e com tal, gozará de todas as honras e direitos inerentes ao posto; pelo que manda à autoridade competente que lhe de posse depois de prestada a solene promessa de bem servir, aos oficiaes superiores que o reconheçam a todos seus subalternos que lhe obedeçam e guardem suas ordens.
Para servir de título, lhe mandei passar a presente Carta por mim assinada, e que se cumprirá depois de sellada com o sello das Armas da Republica.
Palácio da Presidência no Rio de Janeiro em 31 de julho de 1912, nonagésimo 1º. Dia na Independência e vigésimo 4º. Da Republica.

Hermes R. da Fonseca
Ridavia da Cunha Correia

DIRETORIA DA JUSTIÇA DA SECRETARIA DO ESTADO DA JUSTIÇA E NEGOCIOS INTERIORES
PAGOU O SELLO GUIA Nº. 81430
O DIRETOR GERAL
SELINO GOMES
Paraíba 13 de Abril de 1920
Ilmº. Ignácio Evaristo monteiro chefe da 14 delegacia da 2ª. Linha.
Te. Cel. Joaquim Barbosa
Sub. Chefe
Francisco Navarro – Capitão - Secretario.

Registrado a fl. 25 de Liv. 40 de patentes.
Em 24 de setembro de 1912
Miguel pinto Vieira

Prepare-se e registre-se nesta Secretaria Quartel do Comandante Superior da Guarda Nacional na Paraíba em 3 de Novembro de 1912.
Cel. .....................(ilegível)

Prestou compromisso e tomou posse nesta data como consta do termo lançado averso 39 fl. 40 do Livro 1º. De Compromissos.
Secretaria do Comando Superior da Guarda Nacional no Estado da Paraíba em 3 de novembro de 1912

Joaquim da Silva Barbosa
Te. Cor.nel Secretario Geral.
1ª. Delegacia: a 2ª. Linha do Exercito

Paraíba, 5 de Abril de 1919.

* O autor é neto e filho de Nícia Maracajá Henriques.

Fazenda Arara
Fazenda Arara - casa abandonada
Fazenda Nova Vista
                                                                  Fazenda São domingos


O Balaieiro

                                                                                  
O BALAIEIRO

       Grijalva Maracajá Henriques*


Hoje quase não se vê mais esse tipo característico de carregador de balaios nas feiras do nordeste.
Ainda me lembro quando ia à feira de Campina Grande, com minha mãe, lá pelos idos de 1950, levando na mão uma cesta feita de taboca, cipó ou de embira, que era pra ajudar a trazer as coisas “quebráveis”.
O balaieiro era sempre um homem forte, suado, camisa aberta ao peito, calças arregaçadas até o meio da canela, sandálias feita com tiras de couro e pedaços de pneus velhos, chapéu quase sempre confeccionado com um resto de bola de couro.
A gente o contratava logo na entrada da feira. Pacientemente, nos acompanhava, de banca em banca, subindo e descendo o balaio sem deixar cair nada e nem a rodilha feita de molambo e amarrada com barbante, que servia para amortecer o peso enorme sobre sua cabeça. Quando a gente pensava que não cabia mais nada, ainda assim, ele dava um jeito de arrumar perigosa e milagrosamente alguma coisinha que o dinheiro ainda dava pra comprar. Havia hora que a gente tinha que lhe ajudar a erguer o imenso balaio.
Mesmo com aquele peso todo sobre seu corpo, não dava mostra de cansaço. Esperava, pacientemente, que minha mãe comprasse um copo de “gelada de coco ou de maracujá”, que eu tomava ligeiro, com pena do homem que esperava em pé e que de tão gelado dava a impressão que toda minha cara estava anestesiada.
Quando dizíamos que acabaram as compras e o dinheiro, ele perguntava o nome da rua e o número da casa, e de repente, numa metamorfose rápida, aquela pessoa calma virava um quase doido, parecia que se acendia uma fornalha dentro dele e saia em disparada, apitando e gritando, - Sai da frente, olha o sangue, cuidado pra não se melar, e continuava a dizer pilherias a guisa de pedir passagem, até minha casa. Eu e minha mãe choutando, correndo às vezes, para lhe acompanhar no meio do povo que não tava nem aí com a zoada que o “Seu Zé” fazia. Por fim, chegávamos a Praça Alfredo Dantas onde morávamos, cansados da correria e das duas horas que a gente (minha mãe) passava, pechinchando ou mesmo brigando com o feirante, em toda mercadoria que comprava.


*Historiador